CRISPR-CAS9 NO TRATAMENTO DO HIV-1: POTENCIAL TERAPÊUTICO E BARREIRAS TRANSLACIONAIS
Resumo
A infecção pelo HIV-1 ainda representa um desafio importante para a biotecnologia farmacêutica, não pela ausência de tratamento eficaz, mas pela dificuldade de eliminar completamente o vírus do organismo. A terapia antirretroviral combinada permite controlar a replicação viral e manter a carga viral indetectável em grande parte dos pacientes, porém não remove o provírus integrado ao genoma de células de longa duração. Esse é um dos principais obstáculos para a cura. Mesmo com tratamento contínuo, o HIV-1 pode permanecer em reservatórios latentes, especialmente em linfócitos T CD4⁺ de memória, células mieloides e tecidos de difícil acesso, possibilitando o rebote viral quando a terapia é interrompida. Nesse contexto, a tecnologia CRISPR-Cas9 passou a ser investigada como uma estratégia terapêutica capaz de atuar diretamente sobre o material genético envolvido na persistência da infecção.
O presente estudo teve como objetivo analisar o potencial terapêutico do CRISPR-Cas9 no tratamento do HIV-1, considerando as evidências publicadas entre 2021 e 2026. Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica narrativa e integrativa, de caráter exploratório e abordagem qualitativa. Foram selecionados artigos científicos originais, estudos pré-clínicos, estudos clínicos iniciais e revisões críticas disponíveis na íntegra, publicados em português ou inglês, relacionados à edição gênica, latência viral, reservatórios celulares, co-receptores de entrada, sistemas de entrega e segurança genômica. As buscas foram realizadas em bases como PubMed/MEDLINE, ScienceDirect e SciELO, com descritores como CRISPR-Cas9, HIV-1, Gene Editing, Viral Latency e Therapeutic Use.
A análise da literatura mostrou que o CRISPR-Cas9 apresenta duas frentes principais de aplicação no HIV-1. A primeira envolve a edição direta do DNA proviral integrado, por meio de RNAs-guia direcionados a regiões conservadas do genoma viral. A segunda busca modificar genes celulares necessários à entrada do vírus, especialmente o CCR5, com o objetivo de gerar células menos suscetíveis à infecção. Entre os avanços recentes, destaca-se a plataforma EBT-101, uma das primeiras estratégias in vivo avaliadas em humanos adultos sob terapia antirretroviral estável. Embora os dados iniciais tenham indicado segurança e tolerabilidade preliminar, o rebote viral após a interrupção analítica da TARV mostrou que uma única intervenção sistêmica ainda não é suficiente para atingir todos os reservatórios competentes para replicação.
Os estudos sobre edição de CCR5 demonstraram alta eficiência em modelos celulares e proteção contra variantes R5-trópicas, mas essa abordagem apresenta limites importantes, pois não impede a infecção por cepas X4-trópicas e não elimina provírus já integrado. Além disso, os sistemas de entrega continuam sendo um entrave relevante. Vetores AAV9 permitem entrega in vivo, mas apresentam riscos de imunogenicidade, persistência da nuclease e dificuldade de redosagem. Nanopartículas lipídicas surgem como alternativa promissora, embora ainda enfrentem desafios de biodistribuição e tropismo celular.
Conclui-se que o CRISPR-Cas9 apresenta potencial terapêutico real no contexto do HIV-1, mas ainda não constitui uma cura disponível. Sua consolidação depende do aprimoramento da entrega aos reservatórios, do uso de estratégias multiplexadas, da redução dos riscos off-target e da comprovação de segurança genômica em longo prazo.
Palavras-chave: HIV; CRISPR; CAS; TERAPIA GÊNICA; AIDS; TECNOLOGIA
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